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Quando igreja vira rota de dinheiro ilícito: os casos que chegaram à Justiça

Imunidade tributária não transforma igreja em zona sem lei, mas doações, dinheiro em espécie e estruturas pouco transparentes podem atrair criminosos. Casos recentes mostram líderes religiosos, contraventores e políticos aparecendo na mesma investigação sem que isso autorize generalizar sobre todas as igrejas.

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Imunidade tributária não transforma igreja em zona sem lei, mas doações, dinheiro em espécie e estruturas pouco transparentes podem atrair criminosos. Casos recentes mostram líderes religiosos, contraventores e políticos aparecendo na mesma investigação sem que isso autorize generalizar sobre todas as igrejas.

Igreja não paga certos impostos. Isso não significa que pode esconder crime

A Constituição proíbe cobrança de impostos sobre patrimônio, renda e serviços ligados às finalidades essenciais de entidades religiosas e templos. Essa imunidade protege liberdade de culto e evita que tributação seja usada para sufocar uma religião. Ela não cria imunidade penal, não autoriza lavagem de dinheiro e não impede banco, Coaf, polícia, Ministério Público ou Justiça de investigar movimentações suspeitas.

A confusão entre imunidade tributária e ausência de fiscalização ajuda tanto críticos que exageram quanto criminosos que procuram aparência de legitimidade. Uma igreja pode receber doações legítimas e operar dentro da lei. Também pode, como qualquer associação, empresa ou fundação, ser usada por pessoas para ocultar origem de dinheiro. O que define o crime é a operação, não a placa religiosa na porta.

Por que estruturas religiosas podem ser atraentes para lavagem

Templos recebem doações de muitos valores e origens, às vezes em espécie. Há grande variação de governança entre pequenas comunidades e organizações com milhares de membros. Onde controles internos são fracos, uma entrada de dinheiro pode ser apresentada como oferta sem que exista atividade comercial equivalente para comparar. Isso pode facilitar mistura de recursos lícitos e ilícitos.

O problema não é exclusivo de igreja. Restaurantes, postos, empresas de transporte, fintechs, imóveis e organizações sem fins lucrativos também aparecem em esquemas pelo mesmo motivo: permitem construir uma narrativa econômica para o dinheiro. Instituições religiosas acrescentam sensibilidade política e constitucional, o que pode tornar investigação mais delicada.

O PCC já apareceu em investigação envolvendo templos

Em 2023, uma denúncia do Ministério Público do Rio Grande do Norte citada pela imprensa acusou um líder do PCC conhecido como Colorido de usar pelo menos sete igrejas evangélicas como parte de uma estrutura de lavagem que teria ocultado cerca de R$ 23 milhões ligados ao tráfico. A acusação descrevia compra ou controle de templos e outros ativos para dar aparência lícita aos recursos.

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Esse tipo de caso é importante justamente porque não autoriza a conclusão 'igreja evangélica lava dinheiro'. O que mostra é que criminosos identificam organizações com fluxo financeiro difícil de reconstruir e podem tentar capturá-las. A resposta eficaz é transparência contábil e investigação dirigida a indícios, não suspeita coletiva sobre fiéis.

Em 2025, uma igreja apareceu numa investigação de pirâmide

A Polícia Civil de São Paulo investigou suspeita de que a Igreja Ministério Recomeçar tenha recebido mais de R$ 4 milhões de integrantes de um grupo relacionado a uma pirâmide financeira com criptomoedas. Relatório do Coaf foi citado no inquérito. O pastor Davi Nicoletti negou irregularidade e afirmou que valores eram ofertas legítimas e que acusações eram falsas. O procedimento precisava ser tratado como investigação, não como condenação.

Esse cuidado vale para qualquer nome citado. Movimentação atípica é sinal para apuração, não prova automática de lavagem. O crime exige demonstrar origem ilícita e atos destinados a ocultar ou dissimular natureza, origem, localização ou propriedade dos recursos.

Em 2026, política, contravenção e liderança religiosa entraram na mesma operação

Em julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou fase da Operação Unha e Carne e cumpriu prisões contra o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar e o empresário e pastor Márcio Poncio. A investigação apura suspeita de lavagem ligada ao jogo do bicho. Estar no mesmo processo não significa que todos exerceram a mesma função, e as defesas precisam ser consideradas.

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O episódio, porém, ilustra por que o tema não pode ser tratado apenas como moral religiosa. Quando liderança espiritual, poder político e circuitos de dinheiro ilícito se cruzam, existe potencial de influência sobre votos, contratos, nomeações e capacidade de dificultar fiscalização. O risco é institucional.

O problema piora quando fé vira capital político

Pastores e padres têm o mesmo direito de participar de política que qualquer cidadão. O ponto muda quando autoridade espiritual é usada para blindar pessoas contra escrutínio, vender acesso político ou apresentar investigação criminal como ataque à religião. A crítica a um líder não é automaticamente perseguição a sua fé.

Também existe o movimento inverso: políticos procuram púlpitos porque uma comunidade religiosa organizada oferece confiança, rede social e capacidade de mobilização. Essa aproximação pode ser legítima. Torna-se perigosa quando troca eleitoral, dinheiro opaco e proteção institucional entram na equação.

A imunidade não deveria exigir cegueira

Em 2026, a Câmara aprovou uma PEC ampliando alcance de imunidade tributária para entidades religiosas em determinadas compras e serviços, e o texto seguiu para o Senado. É possível defender proteção tributária ao culto e, ao mesmo tempo, exigir contabilidade, identificação de operações relevantes e cooperação com mecanismos antilavagem. São discussões diferentes.

A forma mais séria de proteger liberdade religiosa é impedir que a estrutura seja capturada por quem quer lavar dinheiro, comprar influência ou explorar fiel. Generalizar criminaliza inocentes. Não fiscalizar protege culpados. Entre esses extremos existe algo menos barulhento e mais útil: transparência proporcional, auditoria, bancos cumprindo deveres de comunicação e investigação baseada em evidência.

Fontes consultadas

Esta apuração foi construída a partir de Governo Federal, UOL, Agência Brasil e Câmara dos Deputados. Em temas investigativos, históricos ou ainda em disputa, alegações foram mantidas separadas de fatos já documentados.

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