Finanças

Banco Master, igrejas e poder: o que é fato e o que ainda é suspeita?

A série narrada por Fábio Porchat chamou atenção para relações entre Banco Master, empresários, religião e política. Dias depois, uma nova fase da Carbono Oculto expôs um elo financeiro ainda mais concreto entre estruturas ligadas ao Master e dinheiro atribuído ao crime organizado.

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A série narrada por Fábio Porchat chamou atenção para relações entre Banco Master, empresários, religião e política. Dias depois, uma nova fase da Carbono Oculto expôs um elo financeiro ainda mais concreto entre estruturas ligadas ao Master e dinheiro atribuído ao crime organizado.

A série começou pela relação mais visível

O episódio 'Grandes Igrejas, Master Negócios', da série Revelando, estreou em 21 de setembro de 2026 e usa Fábio Porchat como narrador para organizar conexões entre Daniel Vorcaro, seu cunhado Fabiano Zettel, o pastor André Valadão e a Igreja Batista da Lagoinha. A produção também apresenta relações políticas e financeiras ao redor do antigo controlador do Banco Master.

É importante separar o que uma produção jornalística ou de ativismo apresenta do que uma investigação oficial já provou. Relação familiar, encontro, doação, contrato e amizade são fatos de naturezas diferentes de corrupção ou lavagem. A teia só ganha valor explicativo quando cada linha recebe o peso correto.

Flávio Bolsonaro e Vorcaro tiveram uma relação documentada

Em maio, Flávio Bolsonaro confirmou que manteve contato com Vorcaro durante quase um ano e que buscou apoio financeiro para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Reportagens baseadas em mensagens apontaram um projeto de R$ 134 milhões e pagamentos que teriam alcançado R$ 61 milhões. Flávio afirmou que era patrocínio privado, sem contrapartida pública ou crime.

Também veio a público uma doação eleitoral de R$ 3 milhões feita por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, à campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Doação legal não prova compra de influência. A relevância está em confrontar a antiga afirmação de que o caso estaria distante daquele campo político com uma rede de contatos que depois se tornou pública.

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A origem do Master em 2019 também precisa ser contada sem atalho

O Banco Central recusou em fevereiro de 2019 uma tentativa de Daniel Vorcaro assumir o controle do então Banco Máxima. Oito meses depois, em outubro, já na gestão de Roberto Campos Neto, aprovou nova proposta após apresentação de documentos adicionais. As duas decisões foram colegiadas e unânimes. Portanto, é impreciso resumir o episódio dizendo que um único indicado de Bolsonaro derrubou sozinho um veto do antecessor.

Isso não encerra a pergunta sobre fiscalização. Em 2026, senadores cobraram explicações sobre como um processo antes rejeitado foi aprovado e como os riscos do conglomerado evoluíram. Ex-dirigentes e funcionários de órgãos reguladores aparecem em diferentes frentes investigativas. A questão institucional é quando sinais deveriam ter gerado reação e quem possuía informação para agir.

Toffoli é uma linha própria da investigação, não uma extensão automática de Flávio

A Polícia Federal pediu em fevereiro a suspeição de Dias Toffoli no inquérito do Master depois de encontrar referência ao ministro em material apreendido. Toffoli deixou a relatoria e o caso foi redistribuído. Reportagens posteriores relataram viagens, encontros e estruturas financeiras relacionadas a pessoas próximas, fatos que ele contesta ou diz não configurarem irregularidade.

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Isso não autoriza dizer que Toffoli 'salvou Flávio no caso das rachadinhas'. A decisão de 2021 que anulou relatórios do Coaf na investigação de Flávio foi tomada pela Segunda Turma do STF por 3 a 1, com votos de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes Marques. Toffoli não aparece entre esses votos. Misturar os dois episódios cria uma conexão que os registros não sustentam.

A conexão mais nova veio em 24 de setembro

A terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada em 24 de setembro de 2026, investigou estruturas de lavagem ligadas à compra de uma grande distribuidora de combustíveis. Autoridades apontaram a Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior, como peça usada para movimentar e ocultar recursos. Freixo também aparece nas investigações do caso Master.

O ministro da Fazenda afirmou que a estrutura recebeu dinheiro tanto de grupos ligados ao Master quanto do crime organizado e que recursos passaram pelo mesmo circuito. A investigação fala em fundos e fintechs usados para ocultação patrimonial e em negócios no setor de combustíveis. Essa conexão é mais concreta do que narrativas genéricas sobre 'postos do PCC': há uma operação oficial rastreando fluxos financeiros e beneficiários.

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O que ainda não se pode afirmar

Não apareceu base confiável para ligar diretamente a venda da Refinaria de Mataripe a grupos árabes, os postos investigados por PCC e o Banco Master como uma única operação planejada desde o governo Bolsonaro. São fatos que pertencem a histórias diferentes e precisam de documentos que demonstrem cadeia causal. Colocá-los na mesma linha apenas porque ocorreram no mesmo setor produz uma teoria antes da prova.

O mesmo vale para sanções americanas pela Lei Magnitsky. A campanha envolvendo Alexandre de Moraes tem atores que também aparecem no universo político do Master, mas isso não transforma automaticamente a sanção em mecanismo criado para encobrir o banco. A sobreposição de nomes exige investigação, não conclusão por associação.

A teia real já é grande o suficiente

O que está documentado inclui um banco que vendeu grande volume de CDBs, relações com BRB, contratos jurídicos milionários, circulação por figuras políticas de campos diferentes, contatos com autoridades, patrocínios, fundos de investimento e agora interseção de operadores financeiros com investigação sobre dinheiro de crime organizado. Não é necessário acrescentar fios sem prova para reconhecer uma rede extraordinariamente ampla.

O caso Master é difícil de acompanhar justamente porque cada nova revelação vem como fato isolado. A tarefa jornalística útil é organizar datas, dinheiro, pessoas e posição processual. Quem foi preso não é igual a quem foi citado. Quem recebeu contrato não é automaticamente cúmplice. Quem aparece numa foto não é automaticamente parte da fraude. E quando uma linha financeira é confirmada por investigação, ela merece mais atenção do que dez coincidências sem documentação.

Fontes consultadas

Esta apuração foi construída a partir de Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Agência Brasil e STF. Em temas investigativos, históricos ou ainda em disputa, alegações foram mantidas separadas de fatos já documentados.

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