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“Nunca entrei em avião de Vorcaro”, disse Flávio Bolsonaro. Três meses depois, registros mostram o voo

Flávio Bolsonaro disse que nunca havia entrado em um avião de Daniel Vorcaro. Registros revelados agora mostram uma viagem de 2025 em aeronave com participação ligada ao ex-banqueiro. A sequência de versões ajuda a entender por que o caso ganhou novo peso.

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Em junho de 2026, ao tentar afastar sua imagem de Daniel Vorcaro e do escândalo do Banco Master, Flávio Bolsonaro fez uma afirmação específica: disse que nunca havia entrado em um avião do ex-banqueiro. Três meses depois, documentos obtidos em investigação e revelados pela imprensa colocaram essa frase sob nova luz. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio viajou de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, aeronave cuja estrutura de propriedade incluía uma cota da Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio naquele período.

O detalhe societário importa. Não era um avião exclusivamente pertencente a Vorcaro. A aeronave era administrada por uma empresa de propriedade compartilhada, com três cotas. Uma delas estava ligada à Prime You. Outra pertencia ao advogado e empresário Willer Tomaz, amigo de Flávio, que afirma ter solicitado, escalado e pago integralmente aquele voo. Segundo Tomaz, a viagem não teve participação de Vorcaro.

Isso impede uma conclusão simplista de que Vorcaro pessoalmente ofereceu o jatinho a Flávio. Mas não elimina a contradição política criada pela declaração anterior. Flávio havia escolhido uma formulação ampla ao negar ter entrado em avião de Vorcaro. Agora existe um registro de que ele efetivamente utilizou uma aeronave que, naquele momento, tinha participação societária ligada ao banqueiro.

O voo que reapareceu no pior momento possível

A viagem aconteceu em janeiro de 2025. Flávio estava acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das duas filhas e de Willer Tomaz. O mesmo Legacy 650 voltaria ao noticiário meses depois porque Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, também foi filmado desembarcando da aeronave em agosto de 2025.

Flávio explorou politicamente esse episódio. Em setembro de 2026, compartilhou imagens do ministro desembarcando do avião e usou o caso para atacar Moraes e questionar suas relações. Poucos dias depois, a revelação sobre o próprio voo de Flávio transformou o jatinho em um problema também para sua narrativa.

A diferença defendida pelos aliados de Flávio está na origem de cada utilização. Willer Tomaz afirma que o trecho utilizado por Flávio foi pago por sua própria cota e que Vorcaro não participou da viagem. Essa resposta precisa ser considerada porque a existência de cotas compartilhadas significa que o uso do avião não prova, sozinho, um favor do banqueiro ao senador.

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O problema não começou no avião

O jatinho chama atenção porque é uma imagem fácil de entender, mas a história entre Flávio e Vorcaro já vinha sendo reconstruída havia meses. Em março, quando o nome e o telefone do senador apareceram entre contatos relacionados a Vorcaro, Flávio afirmou que não conhecia o ex-banqueiro. A versão começou a ruir em maio, quando mensagens e áudios revelados pelo Intercept Brasil mostraram conversas diretas entre os dois.

Os registros indicavam uma relação que não parecia casual. Flávio tratava Vorcaro como “irmão” e discutia com ele o financiamento de “Dark Horse”, produção internacional sobre Jair Bolsonaro. O Intercept informou que a negociação previa até US$ 24 milhões para o projeto, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na cotação usada pela reportagem. Documentos analisados pelo veículo indicavam que pelo menos US$ 10,6 milhões já teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025.

Antes da publicação dessa apuração, Flávio negou que a história fosse verdadeira. Questionado por um repórter, respondeu que era mentira. Horas depois, publicou um vídeo reconhecendo as conversas e explicou que sua relação com Vorcaro tinha como finalidade buscar investimento privado para o filme sobre o pai.

A existência da negociação não demonstra por si só crime. A questão criminal continua sendo objeto de investigação. O ponto jornalisticamente relevante é outro: a versão pública mudou depois que apareceram documentos e mensagens que tornaram a negativa inicial insustentável.

De “não conheço” a “era apenas investimento para o filme”

A mudança de versão se repetiu em outros momentos. Depois de admitir a interlocução com Vorcaro, Flávio passou a sustentar que o contato se limitava ao projeto cinematográfico. O argumento buscava separar a relação pessoal e financeira do escândalo do Banco Master.

As mensagens divulgadas posteriormente tornaram essa separação mais difícil de apresentar de forma absoluta. Em uma conversa de setembro de 2025, Flávio demonstrou saber que Vorcaro atravessava um momento delicado. Em novembro, na véspera da primeira prisão do banqueiro, enviou uma mensagem reafirmando apoio pessoal. Esses registros não comprovam participação de Flávio nas irregularidades investigadas no banco, mas mostram que a relação era mais próxima do que a imagem inicial de desconhecimento transmitia.

O próprio calendário se tornou relevante. Flávio afirmou que, quando buscou recursos para o filme, Vorcaro ainda não enfrentava acusações que justificassem preocupação. Reportagens sobre a situação financeira do Master, entretanto, já circulavam antes das mensagens reveladas, e o Banco Central havia rejeitado a venda da instituição ao BRB quando algumas das conversas ocorreram.

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O pagamento que também mudou de data

Outra divergência apareceu em relação aos repasses para o filme. Em maio, Flávio afirmou que o último pagamento de Vorcaro ao projeto teria ocorrido naquele mesmo mês de 2025. Posteriormente, informações de relatório do Coaf divulgadas pela imprensa apontaram uma transferência em 16 de setembro de 2025.

Essa diferença é importante porque setembro já era um momento muito diferente para o Banco Master. A tentativa de venda ao BRB enfrentava forte escrutínio e a situação da instituição estava amplamente em debate. Quanto mais tarde ocorreu o relacionamento financeiro, mais difícil se torna sustentar que todo o contato aconteceu antes de sinais públicos de problema.

Há também controvérsia sobre a prestação de contas de “Dark Horse”. Flávio apresentou uma análise externa para sustentar a regularidade dos gastos, mas apurações posteriores apontaram limitações no material disponível ao responsável pela análise, especialmente sobre despesas realizadas nos Estados Unidos. Novamente, limitação de documentação não equivale automaticamente a prova de desvio, mas impede tratar a auditoria como encerramento definitivo das dúvidas.

Quantas vezes a versão mudou?

O Aos Fatos publicou em 24 de setembro um levantamento no qual classificou 43 declarações de Flávio sobre Vorcaro e o Banco Master como falsas ou enganosas. Esse número é uma avaliação editorial do veículo de checagem baseada em falas reunidas ao longo dos últimos meses. Não significa que exista uma decisão judicial dizendo que Flávio mentiu 43 vezes.

O valor do levantamento está na cronologia. Em vez de depender de uma única frase, ele permite observar o movimento das explicações ao longo do tempo: primeiro o escândalo era apresentado como algo distante da direita; depois Flávio disse não conhecer Vorcaro; em seguida negou a negociação do filme; depois admitiu as conversas e restringiu a relação ao investimento; mais tarde surgiram novos registros de proximidade; e agora apareceu um voo que confronta uma negativa extremamente específica feita meses antes.

Essa sequência é mais relevante do que simplesmente chamar alguém de mentiroso. O leitor consegue comparar o que foi dito em cada momento com o que apareceu depois e formar sua própria conclusão.

O que Flávio e seus aliados dizem agora

Willer Tomaz apresentou a defesa mais direta sobre o jatinho. Segundo ele, a aeronave pertence a uma estrutura de compartilhamento e o voo foi integralmente custeado por sua cota. O advogado afirma que Vorcaro não teve relação com o deslocamento de Flávio e sua família.

Esse argumento responde à pergunta sobre quem teria bancado a viagem, mas não apaga a fala anterior de Flávio. A discussão passa então a ser semântica e factual ao mesmo tempo. Quando o senador disse que nunca havia entrado em avião de Vorcaro, estava se referindo apenas a um voo custeado diretamente pelo banqueiro ou negava qualquer uso de aeronave com participação ligada a ele? A frase original não fazia essa distinção.

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Por que essa revelação pesa mais durante a campanha

Flávio é candidato à Presidência em 2026 e vem usando o caso Master para atacar adversários e autoridades que tiveram relações documentadas com Vorcaro. O novo episódio não inocenta nenhum outro personagem citado nas investigações e tampouco prova que Flávio cometeu crime. O que ele faz é impor uma exigência de coerência: o mesmo padrão de transparência cobrado de terceiros passa a ser aplicado ao próprio candidato.

O caso do avião resume essa tensão em uma única imagem. Flávio criticou Alexandre de Moraes por usar uma aeronave ligada a Vorcaro. Depois, registros mostraram que ele próprio já havia viajado naquele mesmo avião. Existem explicações diferentes sobre quem custeou cada trecho, e elas precisam ser investigadas separadamente. Ainda assim, a coincidência factual existe.

Um deputado federal pediu ao STF que o voo seja incluído nas apurações relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, solicitando que a Polícia Federal identifique quem pediu, custeou e autorizou o transporte e se existe alguma ligação com as negociações do filme. O pedido não significa que o STF tenha concluído pela existência de irregularidade.

A pergunta que permanece depois do jatinho

A revelação mais importante talvez não seja saber quem sentou em qual poltrona. O ponto central é entender por que a descrição pública da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro precisou ser ampliada tantas vezes conforme novos documentos apareceram.

Primeiro havia distância. Depois surgiu contato. Depois veio negociação financeira. Em seguida apareceram mensagens de proximidade. Agora existe uma viagem em aeronave com participação ligada ao banqueiro, justamente depois de Flávio ter usado uma formulação pública que negava esse tipo de conexão.

Isso não transforma automaticamente todas as suspeitas em crimes comprovados. Também não permite ignorar as respostas apresentadas pelos envolvidos. Mas torna legítima uma pergunta básica de qualquer investigação jornalística: se cada nova leva de documentos revela uma relação mais extensa do que a versão anterior admitia, o que ainda falta aparecer para que o público conheça a história inteira?

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