Finanças

Terras raras atraem bilhões. O Brasil ficará só com a extração?

O interesse internacional pelas reservas brasileiras de terras raras cresceu porque esses elementos são usados na fabricação de ímãs, motores, turbinas, eletrônicos e sistemas de defesa. Mas o negócio mais valioso não termina na mina.

Compartilhar

O interesse internacional pelas reservas brasileiras de terras raras cresceu porque esses elementos são usados na fabricação de ímãs, motores, turbinas, eletrônicos e sistemas de defesa. Mas o negócio mais valioso não termina na mina. O minério precisa ser concentrado, separado, refinado e transformado em materiais industriais.

O Brasil dispõe de recursos geológicos relevantes, enquanto a capacidade de dominar todas essas etapas ainda é limitada. É nessa distância entre reserva e tecnologia que se decide quem captura a maior parcela do valor.

A aquisição anunciada da Serra Verde pela americana USA Rare Earth ilustra o tamanho da disputa. Em abril, a operação foi avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, incluindo ações e dinheiro, e acompanhada de um contrato de fornecimento de longo prazo. Os termos apresentados ao mercado indicam a intenção de integrar a extração realizada em Goiás com etapas industriais da cadeia internacional. Isso não prova que toda a riqueza sairá do país, mas mostra por que localização da mina e controle comercial são perguntas diferentes.

Reserva não é fábrica

Ter uma jazida não significa dominar o processo industrial. Separar elementos quimicamente próximos pode exigir tecnologia, energia, capital e cuidados ambientais. A mina é apenas a primeira etapa de uma cadeia que inclui refino, ligas metálicas, fabricação de ímãs e aplicação em equipamentos.

Uma jazida mineral não equivale a um parque de fábricas. O desafio da separação química de elementos semelhantes exige equipamentos, conhecimento especializado, energia, gestão ambiental e escala produtiva. Países que já fabricam ligas e ímãs possuem vantagem porque concentram fornecedores e profissionais treinados. Sem um plano industrial e tecnológico, um projeto de mineração pode gerar exportações e empregos diretos sem criar todo o ecossistema de maior valor associado ao uso final dos minerais.

Documento de referência: Negociação de Serra Verde.

continua após publicidade

O interesse de outros países

Economias industriais procuram diversificar fornecimento de insumos usados em motores, turbinas e eletrônicos. A presença de empresas internacionais pode ampliar investimentos, mas a distribuição de lucros, impostos, empregos e conhecimento depende dos contratos e da implantação efetiva dos projetos.

A discussão sobre soberania precisa sair do terreno dos slogans. Empresas estrangeiras podem investir, empregar brasileiros, pagar tributos e adquirir fornecedores nacionais; companhias brasileiras também podem operar sem transferir tecnologia para o restante da economia. A avaliação depende de dados sobre contratos, royalties, arrecadação, pesquisa local, compras nacionais e destino do material refinado. Esses números permitem avaliar os benefícios concretos de cada projeto e os riscos de uma estrutura excessivamente dependente de compradores externos.

A pergunta sobre soberania

Controlar uma reserva e vender toda a produção no estado bruto não é o mesmo que definir os usos estratégicos dos materiais. A autonomia envolve capacidade técnica, concorrência, regulação transparente e oferta de compradores. Não se mede apenas pela nacionalidade do acionista.

A apuração também considera Termos corporativos registrados nos EUA.

continua após publicidade

Como medir o benefício concreto

Em vez de contar anúncios, a investigação precisa olhar desembolsos executados, empregos permanentes, arrecadação, beneficiamento local e transferência tecnológica verificável. Projetos anunciados podem atrasar ou mudar. O valor econômico só deve ser tratado como realizado quando houver resultados demonstráveis.

Os números do USGS ajudam a dimensionar a diferença entre potencial e produção. A publicação Mineral Commodity Summaries 2026 estima reservas brasileiras de aproximadamente 21 milhões de toneladas e produção de cerca de duas mil toneladas em 2025. A China, no mesmo levantamento, aparece com produção muito superior.

Reservas são estoques geológicos estimados; produção indica fluxo efetivamente obtido em determinado ano. Misturar ambos cria manchetes impressionantes, mas economicamente vazias.

A oportunidade estratégica existe porque Estados Unidos, Europa e outros mercados procuram diversificar o suprimento hoje concentrado em cadeias asiáticas. Entretanto, a vantagem de possuir minerais não assegura liderança industrial ou econômica. Ela se transforma em poder quando o país consegue negociar tecnologia, financiar beneficiamento avançado, formar pessoal qualificado e conectar a mineração à produção de bens finais. A pergunta relevante não é apenas quanto minério será vendido, e sim quais atividades econômicas permanecerão no território brasileiro.

Seu Carrinho
Acesse sua Conta

Não tem cadastro?

Sidebar
Cookies Usamos cookies para melhorar a sua experiência na plataforma com o melhor da tecnologia.