O retrato econômico do governo Lula não cabe em 'o país afundou' nem em 'está tudo bem'. O desemprego está em nível historicamente baixo e a inflação desacelerou, enquanto dívida, juros e confiança fiscal continuam pressionando o futuro.
Os dados obrigam os dois lados a abandonar slogans
No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego medida pelo IBGE ficou em 5,4%, nível historicamente baixo para a série. O IPCA acumulado em 12 meses até agosto estava em torno de 4,22%. Esses números contradizem a ideia de uma economia em colapso generalizado. Ao mesmo tempo, crescimento perdeu velocidade: o Banco Central registrou desaceleração e projetou expansão do PIB de cerca de 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027.
A combinação é estranha para quem espera uma história simples. Mercado de trabalho pode continuar forte enquanto atividade esfria. Inflação pode cair e ainda permanecer acima da meta central. Famílias podem sentir preços e crédito apertado mesmo quando indicadores agregados melhoram. Economia real é exatamente esse conjunto de sinais que nem sempre apontam na mesma direção.
A maior fragilidade está no fiscal e no custo dos juros
O Brasil entrou em 2026 com dívida pública elevada, despesas obrigatórias difíceis de reduzir e juros altos. A Selic em 13,75% encarece crédito privado e também aumenta custo de carregamento da dívida. Projeções fiscais apontam dívida bruta ainda subindo nos próximos anos, com cenários próximos de 90% do PIB no fim da década dependendo de resultado primário, crescimento e juros.
Esse é o ponto em que críticas ao governo encontram base concreta. O arcabouço fiscal substituiu o teto anterior e criou limites de crescimento de despesas, mas metas passaram a conviver com bandas de tolerância e mudanças de receitas. Quando mercado duvida da trajetória da dívida, exige prêmio maior para financiar o governo. Isso retroalimenta juros e reduz espaço para investimento.
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A política de renda trouxe ganho imediato e custo para equilibrar
O governo ampliou salário mínimo real dentro das regras do novo arcabouço e aprovou isenção de Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil mensais, acompanhada de tributação mínima sobre rendas altas para compensação. Essas medidas aumentam renda disponível de grupos específicos e têm efeito distributivo. O desafio é impedir que benefícios permanentes sejam financiados por receitas temporárias ou por dívida crescente.
Também houve aumento de despesas sociais e retomada de investimentos. O debate não é se gasto social é moralmente bom ou ruim. É se o conjunto de compromissos cabe numa base de receita sustentável sem exigir inflação, tributação improvisada ou endividamento crescente. Uma política pode ter objetivo social legítimo e ainda precisar de financiamento crível.
O que piorou de forma mais clara
A percepção fiscal deteriorou em momentos nos quais governo e Congresso criaram exceções, ampliaram despesas ou recorreram a receitas incertas para cumprir metas. A dívida projetada cresceu, e o nível elevado de juros tornou esse problema mais caro. Empresas e famílias enfrentam crédito caro. O crescimento esperado para 2026 é menor que o ritmo médio dos anos anteriores.
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Também permanece baixa produtividade estrutural. O país investe pouco em infraestrutura comparado a necessidades, tem ambiente tributário complexo durante a transição da reforma e enfrenta educação básica desigual. Esses problemas atravessam governos. A responsabilidade do governo atual é não tratá-los como desculpa histórica, mas a responsabilidade da análise é não fingir que surgiram em janeiro de 2023.
O que melhorou e costuma desaparecer na disputa
Emprego é o dado mais evidente. Renda do trabalho e massa salarial se beneficiaram de mercado aquecido. A inflação, embora ainda incômoda para famílias, recuou em relação a picos anteriores. A reforma tributária do consumo entrou em implementação, processo que pode reduzir distorções no longo prazo, embora a transição seja complexa e produza disputa entre setores.
O país também manteve posição externa relativamente mais confortável que em crises históricas, com reservas internacionais elevadas e sistema bancário regulado. Isso não resolve o fiscal, mas reduz probabilidade de uma crise de balanço de pagamentos como as observadas em décadas passadas.
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Existe plano para arrumar a conta? Existe. A dúvida é se basta
O governo apresentou medidas de revisão de benefícios, limitação de crescimento de alguns gastos, aumento de receitas e regras que vinculam expansão de despesas ao crescimento da arrecadação. O Ministério da Fazenda defende que o ajuste é gradual para não destruir atividade e políticas sociais. Críticos afirmam que o desenho depende demais de arrecadar mais e pouco de reformar despesas rígidas.
As opções conhecidas têm custo político. Cortar gasto exige escolher programas e grupos afetados. Aumentar imposto transfere recursos do setor privado para o Estado. Reformar benefícios obrigatórios cria resistência. Crescer mais ajuda a relação dívida/PIB, mas produtividade não aumenta por decreto. Não existe solução que preserve toda despesa, reduza todo imposto e derrube dívida ao mesmo tempo.
O diagnóstico mais útil é o que não precisa torcer
Dizer que 'a esquerda afundou o país' ignora emprego e indicadores que melhoraram. Dizer que o governo entregou uma economia resolvida ignora dívida crescente, juros altos e perda de fôlego. O retrato de setembro de 2026 é um país com mercado de trabalho forte, inflação mais comportada, crescimento desacelerando e uma conta fiscal que continua sem solução confortável.
O teste para qualquer governo, atual ou próximo, é simples de formular e difícil de executar: fazer despesas permanentes caberem em receitas permanentes, aumentar produtividade e investimento e preservar uma rede social que não dependa de crise fiscal para ser revista. O debate político escolhe prioridades. Os números limitam o que é possível prometer.
Fontes consultadas
Esta apuração foi construída a partir de Banco Central, IBGE, Governo Federal e Planalto. Em temas investigativos, históricos ou ainda em disputa, alegações foram mantidas separadas de fatos já documentados.









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