Uma pessoa pode acreditar em Deus, orar, ler a Bíblia e ainda responder “sem religião” quando alguém pergunta qual é sua religião. Esse detalhe ajuda a entender uma mudança que aparece cada vez mais nos dados brasileiros.
O Censo 2022 mostrou queda da proporção de católicos e aumento da diversidade religiosa. Entre jovens, a parcela sem religião é maior do que entre pessoas mais velhas. Dados divulgados pelo IBGE mostram que 14,3% dos brasileiros de 20 a 24 anos se declararam sem religião.
Isso não significa que 14,3% desse grupo seja ateu. “Sem religião” é uma categoria ampla. Ela pode incluir ateus e agnósticos, mas também pessoas que mantêm crenças religiosas sem vínculo formal com uma igreja.
Pesquisas mostram que muita gente continua acreditando
Um estudo do Pew Research Center publicado em 2025 analisou pessoas sem filiação religiosa em 22 países. No Brasil, o grupo incluía muito mais pessoas que diziam não ter “nenhuma religião em particular” do que pessoas que se definiam como ateias.
Esse padrão ajuda a explicar os chamados desigrejados: pessoas que continuam se vendo como cristãs ou espirituais, mas deixaram de frequentar uma instituição de forma regular.
Os motivos são variados. Alguns se afastam por discordância doutrinária. Outros por escândalos, conflitos com lideranças, experiências de controle, polarização política ou simplesmente porque a rotina religiosa deixou de fazer sentido.
O Brasil continua muito religioso
Mesmo com a mudança, o país não virou uma sociedade majoritariamente secular. O IBGE registrou mais de 100 milhões de católicos entre pessoas com 10 anos ou mais no Censo 2022, e evangélicos continuam formando outro grupo enorme.
Pesquisa do Pew publicada em janeiro de 2026 estimou que 29% dos adultos brasileiros se identificavam como protestantes e 15% como religiosamente não afiliados. O Brasil também se destacou porque muitos ex-católicos migraram para igrejas protestantes em vez de simplesmente abandonar a religião.
Por que os jovens aparecem tanto nessa mudança
Jovens crescem num ambiente em que autoridade religiosa compete com uma quantidade enorme de fontes. Sermões, estudos bíblicos, críticas, ex-membros e tradições diferentes estão a poucos cliques de distância.
Isso facilita comparar aquilo que foi ensinado em casa com outras interpretações. Também torna mais comum montar uma identidade espiritual menos dependente de uma instituição única.
Essa liberdade tem dois lados. A pessoa pode encontrar espaço para pensar e reconstruir crenças, mas também perde redes de convivência, apoio e rotina que igrejas ofereciam.
Por isso, “sem religião” não conta uma história inteira. Dentro da mesma categoria estão pessoas que deixaram de acreditar, pessoas que mudaram a forma de acreditar e pessoas que continuam se vendo como cristãs, mas não querem mais que uma instituição responda por sua identidade.
“Sem religião” reúne pessoas muito diferentes
A categoria pode incluir ateus, agnósticos, pessoas espiritualizadas sem vínculo institucional e indivíduos que continuam acreditando em Deus, Jesus, santos ou práticas religiosas, mas não se identificam com uma igreja específica. Tratar todo o grupo como ausência de fé distorce o fenômeno.
Também existe diferença entre pertencimento e prática. Uma pessoa pode se declarar católica e quase nunca frequentar uma celebração; outra pode marcar “sem religião” e orar diariamente. Pesquisas de identidade religiosa medem uma dimensão importante, mas não resumem toda a experiência espiritual.
Instituições e crenças podem se mover em velocidades diferentes
Escândalos, disputas políticas, conflitos internos, mudanças familiares e novas formas de comunidade online podem afastar alguém de uma instituição sem apagar suas crenças. Ao mesmo tempo, outras pessoas realmente abandonam doutrinas religiosas depois de um processo intelectual ou pessoal.
Por isso, o crescimento dos sem religião não deve ser lido automaticamente como secularização completa nem como simples “rebeldia”. Ele pode refletir uma reorganização do mercado religioso brasileiro e uma relação mais individualizada com a fé.
O que vale observar nos próximos anos
A questão central é saber se pessoas que hoje recusam rótulos formarão novas comunidades, permanecerão espiritualizadas de maneira privada ou caminharão para posições não religiosas mais definidas. Geração, escolaridade, região e ambiente familiar podem produzir trajetórias distintas.
O número é relevante, mas a história por trás dele é melhor: brasileiros continuam mudando não apenas de religião, mas também a própria ideia do que significa pertencer a uma.









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